Quem nasceu na década de 70 hoje é irremediavelmente um trintão. Restam nos joelhos cicatrizes quase apagadas dos tombos de bicicleta pelo bairro. Resta a falta de cuidado e a hipótese de engravidar.
Permanece o iminente risco de vida, as incertezas, o não saber andar sozinho. A gana de discutir sobre algum assunto que o valha, de ter opinião pra não passar batido e a verborragia desenfreada que dez cervejas podem provocar.
Uma vontade imensa de amar, de descobrir o amor verdadeiro e viver intensamente cada instante.  A fossa que arrebenta pelas caixas de som, ao velarmos o amor morto, ledo engano, dando adeus outra e mais outra vez, reticente, vazio. A caretice de ter sido rebelde dentro das expectativas desejadas. O desejo não extravasado de mudar o mundo. O não saber bem onde é o começo, o lugar, o ponto certo. Um sentimento de ser um imenso bordão, um bosta, um perdido, um nada igualzinho a todo o resto.
É uma inveja profunda de quem pegou em armas e foi da esquerda, quando a esquerda existia e fazia acontecer. Uma ponta afiada de despeito de ser o resto de um tempo e uma putice muito grande de não ser o inÃcio de outro.
Ter trinta e poucos anos hoje é brincar com os filhos dos amigos e morrer de medo de ter os seus. É pensar quando é que começou mesmo essa história de celular, computador, politicamente correto e lixo reciclável.
Gente perdida, que morre de medo da velhice, que fuma um pra se acalmar, que não explode mais e se angustia cotidianamente de saudades de um tempo que não foi seu realmente.
Busca que angustia, grito que não chega.
Tardou e falhou o nosso tempo.
 Hoje, quero ressuscitar.
Amanhã, vou renascer com 64 anos e tudo fará sentido.