20 20UTC março 20UTC 2008
não é preciso decifrar-me
sou óbvia e incapaz de devorar-te
não me convide
posso ir
não é preciso decifrar-me
sou óbvia e incapaz de devorar-te
não me convide
posso ir
Já chegamos, agora mesmo, ao ponto final.
Não temos mais assunto, não temos ânimo algum.
Chegamos.
Mesmo que a chegada seja o alvo da partida óbvia.
É a partida o que interessa.
Parte do fim e não do começo.
Assim é gozar em várias partes.
Metades oblíquas, confusas, inconstantes.
Um dia lembre de mim.
Da segunda vez em que gritei sem razão.
Dos terços que rezei em pranto.
Dos quartos que não tivemos e aqueles onde estive só, permanente.
E o quanto o quinto dos infernos me fez bem.
Da trouxa que trazia um cesto de infames rosas.
Do perfume barato que inflou o ar.
De minhas mãos bobas e trêmulas percorrendo os seus meios.
E que abandonadas partiram levianas, felizes, prazerosamente!
Primeiro, foi o estampido maravilhoso da loucura.
Agora, é a rendição à lucidez fantasmagórica dos passos no mundo.
Nada mais adequado para um vivente se acostumar com a morte.
O fato interessante é que no meio de tudo isso tem a vida por viver.
Quais motivos têm os homens para adorar o farol apaixonadamente?
Os requisitos mínimos remetem ao amor.
Apanhe o realejo.
Te desejo sorte.
DE VOLTA À CENA
Uns olhos opacos de alicate que cinzas flutuam pela sala
Imagem focada pela luz de um número variante de espelhos
Não se iluda com a reconstituição gráfica da memória da vítima
Captei emoções da testemunha ocular
De uma paixão inesgotável, nenhuma gota
Deságua o rio debaixo de mim
O fogo se apaga e restam cinzas
Dentes e tentáculos cravados na retina
Passou o natal, passou
O novo ano passou
Passou o carnaval
Morrerá o marrom do chocolate pascoalino
Aspiro a fumaça e você a cinza que sobrou daquela cena
São poros arrebentados frente à ordem e ao progresso
Impávido e colosso sem destino
Naufrágio
Insisto em existir
Porque penso e me desfaço em carinhos que se vão
Passagem sem rito, sem memória, sem grito
Uivar é o meu desacato e existo