FEBRA

BREVE VISÃO DO CONJUNTO

19 19UTC junho 19UTC 2008

Tendo dobrado o jornal, fixou-se nas notícias da primeira página. Lançou um olhar rápido, medindo-a de alto a baixo e percorreu alguns assuntos. Trânsito, olimpíadas, eleições e mentiras.

Ergueu devagar o corpo cansado. É difícil mensurar a justiça matemática de dar e receber cotoveladas. Ainda que tenha esperanças que essa incerteza venha a ser dirimida algum dia, agora estava cansada.

Num gesto evidente de desconstrução, desatarrachou a cabeça do pescoço, assim como se faz ao tirar a lâmpada do bocal. Com muito cuidado e precisão, deitou a cabeça numa almofada sobre a mesinha de centro, apanhou as chaves do carro e saiu.

Não se sabe dizer ao certo como foi parar diante da guilhotina e de como suas idéias se propagaram com tanto sucesso.

A cabeça foi levada para um museu. Com apenas R$ 2,00, a população da cidade pode observá-la dentro da caixa de vidro. Vez ou outra alguns visitantes são agraciados com uma breve piscadela.

Muitas tentativas de diálogo já foram feitas. Perguntas sobre previsão do futuro, adivinhação da sorte e coisas do gênero, mas não adianta, falta-lhe o coração. A cabeça febril só faz dar piscadelas esporadicamente, quando avista alguém cujo peito pulsa alto.

Então, acontece aquela fisgada que o amputado sente na perna decepada e o fisgo fecha o olho esquerdo dela. E o coração responde batendo forte e do mesmo lado, lá dentro do peito do visitante sentimental.

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