FEBRA

LÁ LONGE

20 20UTC julho 20UTC 2008

Faz um ano ela partiu. Botou o  vestido vermelho e curto estampado de chita. Um perfume antigo que sabia ele gostar. Apanhou as chaves e acima se foi. Bateu  dedos cruzados contra a porta. Porta se abriu, ela se abriu. E se fechou, que o amor se espanta quando cheio de não transbordar.

POUSADA EM MINHA CERVEJA

Um periquito no Bexiga custa quatorze reais. Luís Fernando achou no lixo um carrinho usado de bebê. Ele vai e vem com aquele carrinho. Quer vender pra comprar um periquito. Os braços e pernas de Luis Fernando têm letras tatuadas com agulha de costura. São as iniciais dos nomes das pessoas que ele ama. Ele tem o alfabeto distribuído pelas pernas e braços. Mas Luís Fernando já parou com isso, a próxima tatuagem vai ser quando for maior, um dragão no peito e o Pica-Pau na perna. Porque a verdade mesmo é que Luís Fernando quer é comprar uma passarinha. É que ele já tem um passarinho e acha que pra um bicho ser feliz completamente precisa de uma "mulher" pra subir em cima. Ele não prende o bichinho não, só a comida dele é que está amarrada com uma corda. Na televisão do bar, o Timão perde pro Bahia. Luis Fernando tem um avô na Bahia, seus pais são de lá, mas ele é corinthiano, graças a Deus. Foi então que Luis Fernando sentou no carrinho e deitou dentro dele. Quantos anos ele tinha? Pareço um neném né dona? Mas já tenho onze anos!

CRUZADO DE DIREITA

Todos compreenderam o Nascimento. Acho que sim. Ninguém mais pede pra sair. Como sair do carro que está sendo crivado por balas? Se tranque. A linha de fogo ultrapassou os morros, os cárceres, os quilombos, os bares da periferia. Compre delivery, tenha seu Home Office, navegue no Submarino. Mas nunca, em hipótese alguma, se atreva a ir e vir. E não esqueça: foi você quem abriu mão disso!

MANÉQUEÉISTO?

Hoje comprei um par de sapatos e pela noite rezei. Assisti o Jornal Nacional e fui dormir. Então sonhei que a humanidade inteira havia sentado em volta de uma fogueira e, entre nós, alguns tocavam violão.Todos cantavam felizes uma canção sobre amor e paz. Era tão perfeito e cor-de-rosa… Tudo correu bem até que alguém no meu canto direito peidou fedido e riu daquele jeito bem canalha. Acordei justo no instante no qual outro alguém à minha esquerda chamou o fedido pra briga e um mané, com cara de intelectual , correu pro centro e se cagou todo. Há os que peidam pra sacanear, os que brigam por causa do cheiro, mas se cagar de medo por causa de uma briga é de tirar o sono da gente!

bastilha feminina

18 18UTC julho 18UTC 2008

Girou a saia, virou a cara. O céu grosso de nuvens mostrando a cheia. Num alto salto pisou o chão. Acocora-se e espia de rosa na boca. O espinho aponta curvas que aplacam as cercanias. São pulseiras, rendas, flores, luzes e cores morenas de sombras atrevidas. Num abaninho, o leque suspira a ventarola da ferida pronta em sua mão. Maçã no mel, circula as velas. No meio dança de fronte erguida. É sangue e fumaça de cigarrilha. É ignição. Com meia boca ela sorri, bate palmas, bebe champagne. Caprichos rubros na zanguizarra iminente, inevitável e desejada. Inverte a linha desgraçada. Tremor, alvoroço, a bailadeira desfere o talhe. O embasbacado estremece. E todo bambo pelo golpe encontra a morte pela navalha. A tropa abala ao romper do dia. Montada em fuga acaba a farra e se despede. Fora do trono mais um zangão!

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