FEBRA

ZICA

26 26UTC agosto 26UTC 2008

Já não sei se dou risada ou se choro. Continuam patéticas as figuras que falam atabalhoadamente frente à câmera de TV, diante do meu focinho cidadão, pedindo votos feito o feirante aos domingos em fim de feira. Porque permanecem famintos de poder e distantes de vergonha. Porque tenho nojo dessa secular falta de coragem. Porque esses covardes desgraçados continuam a devorar as estranhas do povo. Porque se fossem corajosos se empenhariam em construir uma cidade e um país onde a população soubesse realmente sobre sua história. Porque então teríamos eleições justas e eles não seriam candidatos, mas homens do povo. Porque então conheceríamos as origens de tudo, onde começou tudo e onde tudo isso termina. E tenho gana de entrar na TV e dar na cara deles, de esfregar na cara deles os miseráveis que perambulam pelas ruas, carcomidos pela fome e pela loucura. Queria esfregar na cara deles a polícia marginal e truculenta que nos empurra camburão adentro rumo ao inferno. Esfregar na cara deles as escolas decadentes, com professores explorados e vazios, onde me obrigavam a cantar o hino nacional com a mão no peito cheio de raiva dos alunos de escolas particulares que entrariam para a USP. E tenho vontade de chorar quando vejo alguém do povo se vender ainda por causa da camiseta, da dentadura, da cesta básica. Ainda não consegui ser indiferente. Ainda sou da periferia de Sampa, onde tenho meus amigos, meus pais, meus professores que me ensinaram gramática nos meses em que não tinha greve e que me ensinavam História do Brasil com Tiradentes e sem Zumbi, quando tinha luz na sala de aula. E onde tem batuque, crianças de monte pelas ruas, tortura nas delegacias, escolas sem janelas, ônibus lotados, enchente, tiro, sangue, televisão e votos.

é doce

18 18UTC agosto 18UTC 2008

Eu achava que o tempo todo caberia em meu colo pra sempre e que se imaginasse os braços bem esticados conseguiria alcançar qualquer coisa. Eu pensava que esse pavor de que a vida acaba não existia pra doçura dos poetas e que Dorival Caymmi não morria. E eu estava certa.

SÓ HOJE

7 07UTC agosto 07UTC 2008

Não mais. Eu me viro e não explico. A minha condição é não estar parada. Encontro brechas e me encaixo. O que cabe aqui? Eu ofendo na cara. Não entendo superlativos. O hoje é a única experiência interessante e o passado não me serve mais. Já joguei muita pedra que não podia ter jogado e daí? Recebo pedradas também. Essa culpa cristã é uma invenção pilantra. Chega disso. Não vim aqui pra não reagir. Só quero me encolher se for antes do salto. Eu sigo as aparições do espelho que me olham fundo e que me colocam em xeque. Quanta complicação nós causamos quando não deixamos de lado a covardia. A covardia de se assumir frágil e humano. A energia do grito e a solenidade do sussurro. Quando durmo ando pela casa e falo com Berenice. Ela fazia torresmos deliciosos nas minhas tardes de infância. Eu nunca mais comerei torresmos como os dela. Eu nunca mais me deparei com um olhar tão doce. Berenice era uma leoa avó que me fazia tranças no cabelo e me ensinou a falar com os bichos e a cantar cantigas de roda. O mundo tem urgência de Berenices. Pelas noites há uma antena que capta os seus sinais e eles me livram dos maus pensamentos. Meu coração anda na mão. Quando tropeço ele trepida e por vezes cai no chão. Sempre apanhei ele de volta. Nada nos deterá. É o coração quem decide a vida e eu tenho pressa de sentir.

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