ZICA
26 26UTC agosto 26UTC 2008
Já não sei se dou risada ou se choro. Continuam patéticas as figuras que falam atabalhoadamente frente à câmera de TV, diante do meu focinho cidadão, pedindo votos feito o feirante aos domingos em fim de feira. Porque permanecem famintos de poder e distantes de vergonha. Porque tenho nojo dessa secular falta de coragem. Porque esses covardes desgraçados continuam a devorar as estranhas do povo. Porque se fossem corajosos se empenhariam em construir uma cidade e um país onde a população soubesse realmente sobre sua história. Porque então teríamos eleições justas e eles não seriam candidatos, mas homens do povo. Porque então conheceríamos as origens de tudo, onde começou tudo e onde tudo isso termina. E tenho gana de entrar na TV e dar na cara deles, de esfregar na cara deles os miseráveis que perambulam pelas ruas, carcomidos pela fome e pela loucura. Queria esfregar na cara deles a polícia marginal e truculenta que nos empurra camburão adentro rumo ao inferno. Esfregar na cara deles as escolas decadentes, com professores explorados e vazios, onde me obrigavam a cantar o hino nacional com a mão no peito cheio de raiva dos alunos de escolas particulares que entrariam para a USP. E tenho vontade de chorar quando vejo alguém do povo se vender ainda por causa da camiseta, da dentadura, da cesta básica. Ainda não consegui ser indiferente. Ainda sou da periferia de Sampa, onde tenho meus amigos, meus pais, meus professores que me ensinaram gramática nos meses em que não tinha greve e que me ensinavam História do Brasil com Tiradentes e sem Zumbi, quando tinha luz na sala de aula. E onde tem batuque, crianças de monte pelas ruas, tortura nas delegacias, escolas sem janelas, ônibus lotados, enchente, tiro, sangue, televisão e votos.

