Estão todos partindo
19 19UTC setembro 19UTC 2008
Eu devoro a vida pelas bordas adocicadas de um pastel de Santa Clara, mastigando com fervor o açúcar que escorre e se esvai garganta adentro. Eu respiro a vida entre os anéis da fumaça que inspiro e que me roubam minutinhos pra viver. Estou no meio entre o nada e o tudo desse tempo esquisito que em silêncio me inquieta. Porque atamos as mãos e jogamos fora o movimento de outros dias. Porque os dias transpiram o mesmo cheiro compacto e pronto, preparado para não cheirar coisa nenhuma. E a esperança soa ultrapassada, não há mais espera. Resta a saudade do semblante antigo que parte todos os dias para o passado. O semblante iluminador de uma humanidade espelhada na luz de um escritor maravilhoso, de um cantor espetacular, de uma mulher virtuose, de um compositor maldito, de histórias para contar. E eu vou ficando órfã de intensidade e perambulo rota pelas calçadas cobertas de andróides na Avenida Paulista às seis da tarde . Então entro num café e devoro um pastel de Santa Clara, deixando o açúcar escoar minha falta de esperança, arrematando o açúcar com a nicotina, arrefecendo minha ansiedade, acabando com meu tédio e com minha antiga falta de atitude. Mas ainda resta solta pelas gavetas compartimentadas da minha cabeça alguma poesia dessa humanidade que se foi e, ao sair do café, uma delas se abre e por sua fresta sai a voz de Gal gritando Maiakóvski: “ressucita-me, quero acabar de viver o que me cabe “.

