FEBRA

sabe mesmo?

27 27UTC outubro 27UTC 2008

E fui votar. Eleitora obrigatória. E o ato que tantas vezes me emocionara, tornou-se maquinal, burocrático e frustrante.

Diante da urna, pensei nos muitos que lutaram pela democracia e não fiz o que minha puta vontade mandava, não fui capaz de anular meu voto.

Digamos que, entre democratas e republicanos, fiquei com Obama travestido de mulher.

Que democracia é essa? A que passamos uma procuração em branco para qualquer um que gritar melhor ou mais bonito. Compre, ou melhor, vote nessa(e) candidato(a), ele(a) é dupla ação, não deforma, não solta as tiras e é fresquinha(o) porque  se vende mais!

Democracia representativa é um engodo.

Agora, São Paulo já sabe, ou deveria saber…

A humanidade escolhe seu caminho de lama a cada passo covarde e mesquinho que dá.

Vou te contar, tá difícil ser otimista!

A VOCÊ EU SOU FIEL

Me apaixonei por ele ainda menina, foi à primeira vista e avassalador. Depois surgiram outras paixões, mas ele nunca foi esquecido.

Já quase saí no tapa para defendê-lo. E já perdi a conta de quantas foram as vezes em que nós nos amamos loucamente, bem no meio da multidão, aos berros e brados.

Fico puta com as sacanagens que fazem com ele, eu bem que tento avisar e defendê-lo…

Ele é do povo e o povo o adora. Alguns se mordem de inveja, principalmente uns almofadinhas maquiados, mas ele continua aí, arrebatando corações de homens e mulheres.

Minha família aprova nossa paixão e divide ela comigo. Torço por ele, me descabelo, grito, choro, dou risada e vou à loucura.

O amor que ele me desperta é o amor que consigo viver plenamente , o doido varrido, o intenso, o febril! 

Por isso, nunca fui embora dele.

E não é que no sábado passado, esse malandro me volta todo lampeiro? 

Tocou música do Roberto Carlos pra gente. E foi o próprio Roberto quem autorizou a trilha sonora.

Daí, fiquei tão feliz que me joguei naquele mar de gente inebriada.

E pensei que a melhor paixão dessa vida é aquela dividida com gente de verdade.

Eu nunca vou te abandonar Corinthians,

minha vida,

minha história,

Corinthians meu amor!

:

23 23UTC outubro 23UTC 2008

Cheiro de chuva no corpo cansado: brejo.

Prateleiras de dúvidas cobertas de amargo: fome

Andar em círculos sorrindo amarelo: súplica .

Soleira da porta cheia de poeira: desistência.

Exibir a si próprio sem saber o que quer: mortal.

Latejar o amor até que ele se esgote: pleonasmo.

Duvidar do olhar e encarar os pés: passado.

Acrescentar  beijo: sentimento.
.

A CRISE DO COMA

16 16UTC outubro 16UTC 2008

Clips para prender a atenção. Perfurantes acupunturistas, calminhos , trabalham dores na coluna. Desmarcada a terapia, resta o Orkut. Relatos de bueiros e becos não têm lugar neste mundo. Tudo é uma grande crise. Criam-se grupos de trabalho. GT da crise. Sentam-se homens de ternos com clips na mão. O diabo senta ao lado do carnaval e aconselha a dar exemplos bons. Nós erramos em foder vocês com tanta pressa. Agora, estamos no auge da loucura e precisamos de compreensão. O inferno pede ajuda e o mundo dá. Daí, me falam de extraterrestres iluminados que virão para nos salvar. Primeiro eram cavalos e elefantes brancos, agora são megabites e blogs. Lá se vai o pergaminho. Agendem suas consultas, a bosta está solta!

OUTROS NEGÓCIOS

É pra ninar e nina
Restou indo pra lá
ligada
Passos descalços amassam a rima
Hoje lembrei o beijo
fez frio na barriga
O fim é adormecer o fogo
Adormece
não se pode lembrar
Deixa estar viver confusão
Pois dentro tudo se enrosca
e solta
Escapa de mim o querer e quero
É pra fugir
foge
É pra apagar
esquenta
Aplaina
Pousa
esquece
Dias melhores quem sabe
mas fica
É pra ninar insone
Antes que noite adormeça
tão tarde
Veio em mim o seu nome e encolho
a aflição que acua
Como falo às aparências
São reticências inventadas
e esqueço da morte…
Velha categoria da vida
que é sorte

SERÃO

11 11UTC outubro 11UTC 2008

Não é tarde para contar sua história e as minhas quatro paredes abraçarem seu corpo.
Lá fora é difícil de entrar e eu não quero sair daqui
Me dá seu peito pra eu encostar que vou dormir escutando seu ritmo
Respira em mim, suspira na gente
Me conta sua história que eu quero ficar aqui
Entrei de repente, já não quero sair
Me puxa pra perto, me aperta em ti
Parece verdade eu tenho certeza
Então me conta sua história

LEVE 2 PAGUE 3

Agora jogo baralho e comprei um livro de receitas. Costuro meias furadas enquanto passa a novela. Levanto cedo, chego na hora e vou ao supermercado. Encontro paciência onde não tinha e ando pela rua sem muita ansiedade. As crianças me encantam, faz já tempo que deixei a infância. Enternecem minha alma os velhos que antes avistava com olhos distantes.

Ouço os conselhos de minha mãe sem esbravejar. Sei que agora  me pareço tanto com ela. Meu fôlego falta quando ouso correr tal como antes e lentamente volto a caminhar. Já não há mais navios que ancoram no porto, trazendo meu pai e meus avós. Fico pensando muito em Deus e para onde vai toda a gente que enterramos por enquanto. Tem feito mais frio nos últimos meses e a chuva é fina e não tempestade. O clima é ameno, mas a paz está longe, escondida debaixo da calma aparente.

Fico pensando se me conformei, se perdi a esperança, se parei de sonhar. Ou se simplesmente sou mais uma sucumbindo a mesmice plantada pra nos sufocar. Os dias vão se passando, pagamos as contas e prestamos atenção. Tropeço na gente da minha geração pelas mesas dos bares, cheirando bobagens de conversas sem comprometimento.

Manuais de beleza sem nenhuma serventia são vendidos nas bancas como revistas. Eu como minutos do meu tempo junto aos palitos das fritas de coca-cola com gelo e limão.

Existe ainda em mim um desespero, uma falta de ar, uma angústia, uma mágoa que força minha vontade de gritar. Mas não grito e não digo, me espremo e respiro aqui dentro um forte sentimento de queda, de inércia, de vontade de chorar.

Serei velha se o cigarro permitir, se parar de beber tanto, me alimentar melhor e nas horas certas, praticar algum esporte ou se sorrir sem ter importância.

No entanto, prolongo a vida em breves momentos, com técnicas sutis de amar um pouco mais. E me derramo em existir quando remexo num samba, ou caio nos braços do homem que quero e gargalho diante da boa piada. Não quero eternidade se a brevitude do gozo é infinita e muito importante por tudo que faço e sou.

As favas contadas desmancham o sono e num abandono eu vou por aí. 

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