FEBRA

LEVE 2 PAGUE 3

11 11UTC outubro 11UTC 2008

Agora jogo baralho e comprei um livro de receitas. Costuro meias furadas enquanto passa a novela. Levanto cedo, chego na hora e vou ao supermercado. Encontro paciência onde não tinha e ando pela rua sem muita ansiedade. As crianças me encantam, faz já tempo que deixei a infância. Enternecem minha alma os velhos que antes avistava com olhos distantes.

Ouço os conselhos de minha mãe sem esbravejar. Sei que agora  me pareço tanto com ela. Meu fôlego falta quando ouso correr tal como antes e lentamente volto a caminhar. Já não há mais navios que ancoram no porto, trazendo meu pai e meus avós. Fico pensando muito em Deus e para onde vai toda a gente que enterramos por enquanto. Tem feito mais frio nos últimos meses e a chuva é fina e não tempestade. O clima é ameno, mas a paz está longe, escondida debaixo da calma aparente.

Fico pensando se me conformei, se perdi a esperança, se parei de sonhar. Ou se simplesmente sou mais uma sucumbindo a mesmice plantada pra nos sufocar. Os dias vão se passando, pagamos as contas e prestamos atenção. Tropeço na gente da minha geração pelas mesas dos bares, cheirando bobagens de conversas sem comprometimento.

Manuais de beleza sem nenhuma serventia são vendidos nas bancas como revistas. Eu como minutos do meu tempo junto aos palitos das fritas de coca-cola com gelo e limão.

Existe ainda em mim um desespero, uma falta de ar, uma angústia, uma mágoa que força minha vontade de gritar. Mas não grito e não digo, me espremo e respiro aqui dentro um forte sentimento de queda, de inércia, de vontade de chorar.

Serei velha se o cigarro permitir, se parar de beber tanto, me alimentar melhor e nas horas certas, praticar algum esporte ou se sorrir sem ter importância.

No entanto, prolongo a vida em breves momentos, com técnicas sutis de amar um pouco mais. E me derramo em existir quando remexo num samba, ou caio nos braços do homem que quero e gargalho diante da boa piada. Não quero eternidade se a brevitude do gozo é infinita e muito importante por tudo que faço e sou.

As favas contadas desmancham o sono e num abandono eu vou por aí. 

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