FEBRA

AVATAR

9 09UTC novembro 09UTC 2008

Quando chegou com a sua graça de questão, com o objetivo maior de bater palmas a si mesmo, tudo em volta silenciou tranquilamente. Se esmerara tanto na inteligência, numa gama variada de discursos e ótimas fotografias. No entanto, silêncio. Ainda era irrelevante, fraco, sem brilho. Escolhera as roupas, o corte de cabelo, a barba aparada, mas traiu fingindo. Poucas coisas na vida são melhores do que ser natural. Disso não sabia. Andou tanto pra cima e pra baixo, preocupado em parecer importante e ainda era o mesmo bobalhão que recebia petelecos na orelha. Ainda tinha medo e era covarde. Ainda não sabia o que fazer com as mãos e não olhava para os outros. Não. Plantara a semente infértil do egoísmo em seu umbigo seco e raso. Nada cresceu ali. Havia quadros nas paredes, havia livros na estante, havia roupas no armário. Não importa o que havia, se nada lhe deu nenhuma fruta suculenta que lhe derramasse o suco entre os lábios murchos. Mas a soma que subtraía da mesmice causava a impressão que era importante deveras. Sozinho era o paspalho atrapalhado, desconfortável dentro de si mesmo, esquecido das poses alimentadas de fingimento. Sozinho não era ninguém. E era sozinho que se tornava interessante. Franzino, flácido, insosso. Denunciava as cópias que fazia dos outros em cada gesto ou palavra. Eram eles quem passavam e ele ficou. Não foi tomar chuva, mas disse que foi. Não foi para a luta, mas disse que foi. Não se jogou no mar revolto do amor, mas disse que amou. Eis a cruz que carrega: sobre suas costas está ele mesmo debruçado, erva daninha de sua existência. Não caça, não pesca e come o combinado. De qualquer jeito não se mexe, é sombra, vulto, fantasma amedrontado pela infância tirana e melancólica. Não. Não se atreve a rasgar o peito duro e morno. Não se derrama com medo de esvair e se perder. Não segue adiante e não estanca com fervor. Anda em círculos com passos miúdos e cafonas. Quando se apresenta, faz efeitos especiais com gelo seco e esconde sua insipidez na fumaça. Se o vento chega, corre dele a segurar o penteado ridículo que disfarça a calvície nascente.

São diversos os modelos de nada.

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