NO CAMINHO DO LIXO
11 11UTC novembro 11UTC 2008
Atirei ao lixo cartas antigas, velhos recortes de jornais, fotografias, extratos bancários e bonés de times de vôlei. Joguei fora cartas de baralho, caixinhas de papelão, brincos quebrados e cupons fiscais.
No momento em que ensacava todo aquele monte destinado à reciclagem, pensei se reciclariam mesmo minha vida em pedacinhos. Senti uma vertigem estúpida de quem se flagra infantilmente partindo de si mesmo e resmunguei uma bronca para minha fragilidade.
É que, expurgando aquela matéria morta, senti que o tempo se vai sutilmente e feroz por mim. Não há mais como voltar para o momento das cartas, nem tão pouco abrir os jornais naqueles dias em que as notícias me pareciam tão importantes ao ponto de recortá-las; não existe a possibilidade de posar naquelas fotos, com aquele mesmo rosto e sentimentos.
A conta naquele banco foi encerrada, há muito deixei de jogar vôlei e as cartas estão fora do baralho. As caixinhas perderam a função e se rasgaram cotidianamente, os brincos já cumpriram seu papel de balançarem alucinadamente em festas que acabaram ao amanhecer e os cupons fiscais foram os que mais me penalizaram, pois se tratavam de comprovantes de compras de coisas que jamais preencheram meus vazios.
No caminho da porta do apartamento até o cesto de recicláveis do andar, cruzei com a vizinha de porta que não se conteve ao comentar sobre o tamanho do saco despejado. Quando expliquei à boa senhora do que se tratava, ela me disse que fim de ano é época de se despedir de tudo que ficou para trás.
Com a máxima da vizinha na cabeça, fiquei observando pedacinhos da minha vida descendo latão abaixo. Fechei a tampa com severidade e pensei: sou bem mais do que isso!
Mas…o quê ficará de fato?

