OLHOS ABERTOS
17 17UTC novembro 17UTC 2008
Não! Por favor, não crave assim as unhas nas palmas das mãos. Não tenha gana de se matar. Não puxe os cabelos negros em desespero, não morda os lábios até sangrarem.
Com as mãos em chagas, lábios partidos, cabelos desgrenhados e sem vida não!
Deve haver alguma saída, alguma chance, algum motivo além da dor.
Não sei explicar ao certo qual a verdade do tempo e do mundo dos homens, eu me perdi junto com eles. Mas não se destrua.
Ainda resta beleza, ainda restam desejos, ainda restou algum sonho. Sei que são restos, escassos, poucos e gastos, mas passíveis de multiplicação.
São meus, entregues por outros, repartidos amiúde, com generosidade e canção.
Toma todos eles, carrega eles de mim, mas não desfaça as linhas de tuas palmas em cicatrizes e não derrame sangue em tua boca, nem arranque os pensamentos pelos cabelos. Não parta da vida assumindo uma derrota que não é sua.
Não adiantou o abrigo, o banho, pentear os cabelos dela. Não serviu nosso abraço, nosso canto, minha sopa, a poesia que li para ela.
Ela tinha feridas no ventre, no peito, na alma.
Ela se enforcou ontem. E a humanidade, outra vez perdeu a chance.
Toda vez que meus sonhos perdem pra essa realidade estúpida e cruel, me sinto infinitamente idiota e pequena.
Marinalva se foi porque sua existência só fez sentido para o sofrimento. Nasceu , cresceu e morreu todos os dias nas ruas de São Paulo. E São Paulo nunca se deu conta de Marinalva. E São Paulo enforcou Marinalva com lençóis de abrigo e inscrições oficiais pintadas de um azul desbotado.
Os olhos abertos de Marinalva, ainda traziam espanto, pasmos se despediram em interrogação. Onde quer que eu vá, vou levar os olhos dela comigo. Eu juro Marinalva, eu juro!

