FEBRA

A MANHÃ DE CRIANÇA

14 14UTC dezembro 14UTC 2008

Final de ano na metrópole guarda semelhança com final dos tempos. O caos se instaura. O trânsito pára. Pessoas entopem as ruas e uma nuvem enorme de ansiedade toma conta do concreto. Luzes sinalizadoras piscam por todos os cantos, um velho de vermelho, parecido com um bombeiro gordo e aposentado, tenta salvar os solitários entrando pelas janelas e chaminés. Mas não há quase chaminés, porque aqui é calor e o frio não vem dos termômetros, nasce dolorosamente na poça da indiferença. 

Mas Noel quer salvá-los da solidão assim mesmo. Visto que é uma solidão instalada nos peitos desde sempre. Então,  volta o velho todos os anos para cultuar o salvamento e lotar vitrines de lembrancinhas.  E lembrancinha é coisa que esquecemos em menos de doze meses.

Estrelas penduradas por um fio e cartões com dizeres de paz e harmonia, mas a qualidade do desejar tais sentimentos tropeça e começa a variar.

Há uma rua de março que pavimenta a elegia da loucura. A loucura da estupidez de comprar. Cotovelos agudos se espremem entre carteiras que desaparecem bueiro adentro. São eletro, eletrônicos e guirlandas miseráveis que enroscam nos pescoços das renas de uma fauna estranha e distante.

Do labirinto dos corredores, caminha a multidão rumo ao coral alucinado. Prontos para explodir junto aos fogos da meia noite, surgem gritos de contagem regressiva. E regressam os segundos abraços diminutos, passageiros, protocolares e obrigatórios.

Depois, tudo volta ao normal. Voltamos para nossas casas, cargos e funções de não existir. Resta o lixo e uma angústia que não se resolve a entrelaçar mãos com a formalidade de fingir.

Ah! A humanidade finge tão bem que até se emociona, fecha os olhos e, passivamente pára num instante de calendário para sorrir e fazer força para aceitar que tudo está nos eixos. Meus olhos estabacam, arregalam e ardem estuporados. Mesmo assim, existe alguma fé que sobra, uma fé ingênua que se comove e insiste no estampido, que também faz força em imaginar um clique que se multiplique e desencadeie abraços verdadeiros. Mas até a fé se contagia e corrompe o curso, a fé se esquece do espírito que não se pode ajoelhar.

Compram o espírito natalino no camelô da esquina, é um bibelô made in China, que dentro em breve vai quebrar. Não dura muito,, é frágil, é barato, feito pra não vingar. 

A conexão entre o intenso e o duradouro caiu. Espatifou em mil pedaços, já não há  tempo de ligar.

Mas o que vamos fazer? Se o sol ainda rompe em dias novos a levantar todos os povos, insistindo em despertar? Que nos resta além de sonhos, mesmo que estúpidos ou tristonhos, distantes ou perdidos de tão perto a não chegar?

Pois então, que o sussurro tímido dos peitos caídos e cansados, busque algum fôlego, já que ainda temos ar.

Porque vejo crianças crescendo,  quando reparo nas pernas compridas de meus sobrinhos meninos, ou nos sorrisos dos filhos de meus amigos, nos olhos cansados dos que depositam saquinhos de balas no retrovisor do carro, ou canivetes desesperados nos pescoços de medo.

Porque sei que eles todos não têm culpa da calhordice, mas estão aí, prestes a dar de cara com ela amanhã. E tudo que quero é que eles construam juntos um tempo novo, que rabisquem em seus cadernos de caligrafia uma história nova e possível de uma vez por todas.  

Todo o meu desejo vai para as crianças. Não posso conceber um destino  frio, estúpido e vazio aos inocentes lançados num futuro no qual nunca pensamos sem temor, ou sem lançar mão de grades que não vão proteger seus passos livres.

Que seus pés ainda novos trilhem rumos plenos e a molecada possa desfrutar de um tempo bonito de tão humano e verdadeiro. Um tempo que não será mais como agora, que será de todos e não de ninguém. Um tempo que ainda e também podemos começar.

Oxalá! Ainda podemos voltar a desenhar esse tempo de meninada!

Que amanhã seja feliz e criança.

CREIO

1 01UTC dezembro 01UTC 2008

Porque o tempo sublinha a noite e me deito cheia de lembranças infinitas. E me viro de lado e você, dormindo, adivinha meu olhar, estica os braços e me alcança onde longe estava, me resgatando outra vez para a nossa casa. Porque suas mãos desenham minha esperança e já chega o dia que se levanta iluminado. E não tenho dúvidas e não trago medos e sigo com razão adiante. De tanto viver me esqueço e não há nostalgia, não sou melancólica e não presto atenção. Levianamente sou feliz e me comovo com coisinhas miúdas, com gestos infames, com grandes abcdários. E procuro não escutar o ritmo lancinante das chagas abertas, das veias que entopem e do estupor que maldiz o intento. Revigoro meu ventre e vou por enquanto, porque tudo é finito, mesmo que a ilusão não tolere, mesmo que não se admita, mesmo que a fé proíba.
Rezo para afugentar más coincidências e freqüentes desencontros, para esquecer a morte e me sentir protegida. Rezo quando penso que sou diminutamente humana e assim viro parte de um todo antigo e mítico que abranda a gota que sou. Não junto as mãos, não faço sinais e não acendo velas, mesmo assim é uma prece mortal. Ai que morro, ai que vivo até lá e a existência me bota em cheque por vezes. E, por vezes, rezo.
E me dão anjos e me cedem imagens, eu os guardo e a eles recorro por vezes.
E tantas vezes me esqueço da passagem rápida, me sentindo elástica, eterna, imperecível. E nesses instantes sou fortaleza e dobro dragões ao meio, me lanço em batalhas invencíveis e as venço sem notar o sangue, ou a me deliciar com ele, porque o tempo também sublinha derrotas, mas nos lança aprumados à vitória.
Na cabeceira, guardo remédios para a dor, engolindo as pílulas brancas gole por gole, quando a cabeça me lembra de sua presença, quando o que penso pulsa mais forte do que de costume. E me habita uma fome nas entranhas do existir de não mais sentir dor. E valho-me de uma aspirina e ela me alivia a sorte de pensar demais.
É que meu corpo reclama os ditames da alma invisível e tabu, circundante interrogação, que ora afirma ora nega, pacifica e desnorteia, energia que não pego e me toca o frio na barriga, que não é concreto e está lá, todo o tempo.
E ele sublinha esse frio constante, esse frio na boca do estômago de existir.

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