CREIO
1 01UTC dezembro 01UTC 2008
Porque o tempo sublinha a noite e me deito cheia de lembranças infinitas. E me viro de lado e você, dormindo, adivinha meu olhar, estica os braços e me alcança onde longe estava, me resgatando outra vez para a nossa casa. Porque suas mãos desenham minha esperança e já chega o dia que se levanta iluminado. E não tenho dúvidas e não trago medos e sigo com razão adiante. De tanto viver me esqueço e não há nostalgia, não sou melancólica e não presto atenção. Levianamente sou feliz e me comovo com coisinhas miúdas, com gestos infames, com grandes abcdários. E procuro não escutar o ritmo lancinante das chagas abertas, das veias que entopem e do estupor que maldiz o intento. Revigoro meu ventre e vou por enquanto, porque tudo é finito, mesmo que a ilusão não tolere, mesmo que não se admita, mesmo que a fé proíba.
Rezo para afugentar más coincidências e freqüentes desencontros, para esquecer a morte e me sentir protegida. Rezo quando penso que sou diminutamente humana e assim viro parte de um todo antigo e mítico que abranda a gota que sou. Não junto as mãos, não faço sinais e não acendo velas, mesmo assim é uma prece mortal. Ai que morro, ai que vivo até lá e a existência me bota em cheque por vezes. E, por vezes, rezo.
E me dão anjos e me cedem imagens, eu os guardo e a eles recorro por vezes.
E tantas vezes me esqueço da passagem rápida, me sentindo elástica, eterna, imperecível. E nesses instantes sou fortaleza e dobro dragões ao meio, me lanço em batalhas invencíveis e as venço sem notar o sangue, ou a me deliciar com ele, porque o tempo também sublinha derrotas, mas nos lança aprumados à vitória.
Na cabeceira, guardo remédios para a dor, engolindo as pílulas brancas gole por gole, quando a cabeça me lembra de sua presença, quando o que penso pulsa mais forte do que de costume. E me habita uma fome nas entranhas do existir de não mais sentir dor. E valho-me de uma aspirina e ela me alivia a sorte de pensar demais.
É que meu corpo reclama os ditames da alma invisível e tabu, circundante interrogação, que ora afirma ora nega, pacifica e desnorteia, energia que não pego e me toca o frio na barriga, que não é concreto e está lá, todo o tempo.
E ele sublinha esse frio constante, esse frio na boca do estômago de existir.

