FEBRA

FERRADURA

27 27UTC fevereiro 27UTC 2009

Um dia, vou ler com atenção o mapa astral que Maristela fez pra mim em meu aniversário de vinte  anos. Estender uma colcha velha no quintal da casa de meus pais e fechar os olhos para voltar no tempo dos brinquedos de madeira. Debruçar o peito na janela aberta e dobrar o corpo para baixo  na vertigem covarde de quem não quer ir em frente. A mão direita prende a nuca e a boca não chega com o beijo no rosto incógnito. A distância do muito prazer é oficial. Que praça foi aquela onde entorpecida pelo pileque dos tempos de estudante, rodopiei horas e horas cantando histérica de alegria?

Será que um dia o silêncio da noite vai enlouquecer meu conformismo? Ou a diversão solitária sairá de mãos dadas cirandando pela cantiga dos avós maternos? O cachorro magro, o vômito negro, o instante bestial elevado a última potência do sopro. Sabia que não partiria mais! Fingi fazer falta para conseguir levantar feito máquina acionada pelo grito insuportável do relógio familiar.

Deixo de buscar fantasias. De colar lantejoulas na saia, de pedir fogo, de assoprar malícias pelo canto direito da boca. Pareço-me tanto com uma vassoura de pelos! Pareço-me tanto com os sons que desconheço! Pareço-me tanto com o que se acumula nos cantos e que não vai, de jeito nenhum, para debaixo do tapete. É como qualquer despedida na esquina, qualquer dama no escuro, qualquer admiração sem estrelas.

Uma tarde, em março, durante uma trovoada espevitada, as pessoas se foram da minha vida e fiquei de mau humor. A humanidade recorre ao marrom dourado e ao acaju, aos cremes anti-sinais, fibras, lipos e corridas para correr da morte. Mas é a vida que anuncia que o final deve ser grande. A beleza é fundamental, mas prefiro não ter nada apertando meus calos quando estou pensando, por conta disso as sandálias rasteirinhas, os tênis velhos que me fazem parecer uma balzaquiana cafona estacionada na puberdade. Minha ode é ao prazer e meu prazer não é estético. Não rejeito comentários, detesto comparações e reviro em minhas tripas o que franze minhas rugas. Estou viva e livre de amarras.

Por enquanto, isso basta.

O belo e a fera

19 19UTC fevereiro 19UTC 2009

Que venga el toro!

E Ferdinando surgiu sorrindo docemente.

O corpão enorme trazia adiante um olhar selvagem de liberdade.

O som emitido pelas cordas vocais era grave, muito grave e alto.

Que venga El toro!

E Ferdinando avistou a flor vermelha,

o  olfato conduziu seus  passos até o grampo que prendia  a rosa nos cabelos dela.

E a marcha começou.

Ela segurou a  saia, ergueu a ponta até a altura das coxas e sorriu desafiando.

Ele deu dois passos para trás, abaixou a cabeça e raspou com força os cascos no chão.

Que venga El toro!

Puseram-se a dançar na sala do apartamento.

Olé!

Amaram-se sobre a capa vermelha do toureiro  morto por abelhas africanas que resolveram deixar Ferdinando em paz com sua amada.

 

CARO ESPANTALHO

11 11UTC fevereiro 11UTC 2009

Sua mensagem me proporcionou tédio virtual!

Quantas entrelinhas existem nas  estrelinhas ausentes entre nós!

Vejo o jeito do seu espírito dentro do seu corpo em meio a bobagens do mundo. Quanto desconcerto…

Pulei pro banco da frente, sou rainha da minha kit!

Ficaram nossos acordos sem entendimento e um lamento contido pelo barulho do aspirador de pó…

Aprendi com os livros de receitas a dar menos importância pras minhas mazelas!

Estou em repouso festivo…

Ganhei bônus de luz dia desses em meio a pirilampos e entes queridos dentro da floresta!

Já não procuro um lugar no mundo. Estão todos ocupados. E estou satisfeitíssima com meu nomadismo!

O seu passado não me interessa mais…

Ah! Como ela soube meu amanhã antes de mim… E, no entanto, mesmo assim estendeu sua mão de mulher forte para sua existência débil!

Desprezo quem não sabe dançar com mulheres de verdade em dias de festa. Medo do ridículo é ser ridículo totalmente!

Perebas nascem no espírito dos escondidos…

Seu presente está no milharal…

SEM PORTO

Venha cá com o tio miúda!

penteava meus cabelos com as mãos.

Não foi um homem perfeito, nenhum é, mas não tinha a perfeição de José, não para mim.

No entanto, tinha um brilho bonito nos olhos, um sorriso melancólico vindo de Barcelos.

Alzheimer levou o gosto por cabelos negros e lisos, as lembranças, a existência do pensamento lúcido.

Alzheimer levou o tio para um lugar deserto de brilho, bem longe daqui.

Mas não arrastou na demência cruel o sorriso melancólico de seus lábios.

Navegar é preciso, viver não é preciso!

Goethe, meu amor!

“Ah, não são as vossas grandes e raras catástrofes, essas inundações que arrastam vossos vilarejos, esses tremores de terra que submergem vossas cidades, que me impressionam! O que me consome o coração é essa força dominadora que se oculta sob a totalidade da Natureza, e que nada produz que não destrua o que a rodeia, e por fim a si mesmo… E assim vagueio atormentado por aí. Céu, terra e suas forças ativas em volta de mim! Nada vejo senão um monstro que engole eternamente e eternamente volta a mastigar e a engolir.”

Goethe - OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER

RENASCER DOS ESCOMBROS

22 22UTC janeiro 22UTC 2009

Um Pit Bull comeu o mp3 de Washington. Ainda bem que não lhe devorou a cara mulata. Restou a boca para sorrir aliviado e gaguejar um pouco. E ele conserva a esperança no futuro. Eis o novo messias!

GRAÇAS AO CAMINHO

13 13UTC janeiro 13UTC 2009

Vontade de perder o controle, de tomar consciência, de me consumar.

Desejo de suspirar lá no fundo,  de roubar um beijo, de evaporar.

Gana de ser singeleza, de não provocar espanto, de acontecer lentamente.

Sede de viver mais um pouco, de voltar atrás, de refazer o traçado.

Fúria dentro dos quatro pilares, envolta em tapumes, desenvolvido o veneno.

Pressa de chegar não sei onde, de provocar movimento, de não estar mais lá.

Sou o que sou, não posso mudar, mas muda e mais muda, surdina histérica, menina velha, velha mulher.

O que está aqui não está.

LABIRINTITE

7 07UTC janeiro 07UTC 2009

Fechei os olhos, foi. Vinha de mim uma passagem de ruínas e de deserto, então fechei os olhos. Sem estancar a vontade de me perder na escuridão, de pálpebras cerradas, me perdi de olhos fechados. Foi um segundo, eu sei, mas foi um segundo de intensa profundeza e vertigem. Calei  a boca, cerrei os lábios e parti. Fui por aí, pelos cantos, cega e muda de viver. Foi um segundo perdido no silêncio e no breu de mim. Não quis ver nem dizer nada. Quando abri a boca antes dos olhos e olhei após falar, tudo estava no mesmo lugar fora. Dentro ficou um segundo pregado na poeira das entranhas substitutas de correspondências entre mim e o mundo.

 

NEM NOVAS, NEM BOAS

Acabou 2007. Acabou a trégua.

Fogos cruzaram o céu. Não eram de artifício. Fuzilamentos e massacres.

Faz sentido perseguir o puritanismo para um povo que foi perseguido pela mesma razão? Faz sentido virar as costas para a convivência  pacífica de diferentes etnias e religiões?

Faz sentido quando a desculpa oculta a sede de poder. A sede de poder de Hitler e a sede de poder no Oriente Médio são duas faces da mesma moeda sanguinária e egoísta.

É um genocídio contra a população de Gaza. Metade da população de Gaza é composta por crianças.  Faz sentido quando se pensa em exterminar um povo para saquear o que é seu.

Não faz nenhum sentido quando se pensa em boas novas para a humanidade. E continuo a pensar nas crianças e minha vontade de chorar permanece intacta, fazendo todo o sentido, um sentido vazio e desesperançado.

A MANHÃ DE CRIANÇA

14 14UTC dezembro 14UTC 2008

Final de ano na metrópole guarda semelhança com final dos tempos. O caos se instaura. O trânsito pára. Pessoas entopem as ruas e uma nuvem enorme de ansiedade toma conta do concreto. Luzes sinalizadoras piscam por todos os cantos, um velho de vermelho, parecido com um bombeiro gordo e aposentado, tenta salvar os solitários entrando pelas janelas e chaminés. Mas não há quase chaminés, porque aqui é calor e o frio não vem dos termômetros, nasce dolorosamente na poça da indiferença. 

Mas Noel quer salvá-los da solidão assim mesmo. Visto que é uma solidão instalada nos peitos desde sempre. Então,  volta o velho todos os anos para cultuar o salvamento e lotar vitrines de lembrancinhas.  E lembrancinha é coisa que esquecemos em menos de doze meses.

Estrelas penduradas por um fio e cartões com dizeres de paz e harmonia, mas a qualidade do desejar tais sentimentos tropeça e começa a variar.

Há uma rua de março que pavimenta a elegia da loucura. A loucura da estupidez de comprar. Cotovelos agudos se espremem entre carteiras que desaparecem bueiro adentro. São eletro, eletrônicos e guirlandas miseráveis que enroscam nos pescoços das renas de uma fauna estranha e distante.

Do labirinto dos corredores, caminha a multidão rumo ao coral alucinado. Prontos para explodir junto aos fogos da meia noite, surgem gritos de contagem regressiva. E regressam os segundos abraços diminutos, passageiros, protocolares e obrigatórios.

Depois, tudo volta ao normal. Voltamos para nossas casas, cargos e funções de não existir. Resta o lixo e uma angústia que não se resolve a entrelaçar mãos com a formalidade de fingir.

Ah! A humanidade finge tão bem que até se emociona, fecha os olhos e, passivamente pára num instante de calendário para sorrir e fazer força para aceitar que tudo está nos eixos. Meus olhos estabacam, arregalam e ardem estuporados. Mesmo assim, existe alguma fé que sobra, uma fé ingênua que se comove e insiste no estampido, que também faz força em imaginar um clique que se multiplique e desencadeie abraços verdadeiros. Mas até a fé se contagia e corrompe o curso, a fé se esquece do espírito que não se pode ajoelhar.

Compram o espírito natalino no camelô da esquina, é um bibelô made in China, que dentro em breve vai quebrar. Não dura muito,, é frágil, é barato, feito pra não vingar. 

A conexão entre o intenso e o duradouro caiu. Espatifou em mil pedaços, já não há  tempo de ligar.

Mas o que vamos fazer? Se o sol ainda rompe em dias novos a levantar todos os povos, insistindo em despertar? Que nos resta além de sonhos, mesmo que estúpidos ou tristonhos, distantes ou perdidos de tão perto a não chegar?

Pois então, que o sussurro tímido dos peitos caídos e cansados, busque algum fôlego, já que ainda temos ar.

Porque vejo crianças crescendo,  quando reparo nas pernas compridas de meus sobrinhos meninos, ou nos sorrisos dos filhos de meus amigos, nos olhos cansados dos que depositam saquinhos de balas no retrovisor do carro, ou canivetes desesperados nos pescoços de medo.

Porque sei que eles todos não têm culpa da calhordice, mas estão aí, prestes a dar de cara com ela amanhã. E tudo que quero é que eles construam juntos um tempo novo, que rabisquem em seus cadernos de caligrafia uma história nova e possível de uma vez por todas.  

Todo o meu desejo vai para as crianças. Não posso conceber um destino  frio, estúpido e vazio aos inocentes lançados num futuro no qual nunca pensamos sem temor, ou sem lançar mão de grades que não vão proteger seus passos livres.

Que seus pés ainda novos trilhem rumos plenos e a molecada possa desfrutar de um tempo bonito de tão humano e verdadeiro. Um tempo que não será mais como agora, que será de todos e não de ninguém. Um tempo que ainda e também podemos começar.

Oxalá! Ainda podemos voltar a desenhar esse tempo de meninada!

Que amanhã seja feliz e criança.

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